Na contramão das telas, cartas escritas à mão, lacres de cera e papelaria vintage voltam a despertar interesse

Formato Blog (1) - Master

Pesquisa internacional aponta alta de 105% nas buscas por selos decorativos e de 45% por cartas manuscritas; nostalgia e desejo de experiências mais pessoais impulsionam novos hábitos de consumo

Em plena era da inteligência artificial, das mensagens instantâneas e das relações digitais, objetos que pareciam destinados ao passado começam a conquistar novos admiradores. Cartas escritas à mão, lacres de cera, diários, cadernos personalizados, carimbos e adesivos colecionáveis voltam a despertar interesse, especialmente entre pessoas que buscam atividades criativas e experiências mais pessoais. O movimento, observado em nichos de consumo, combina nostalgia, expressão individual e o prazer de dedicar tempo a algo produzido manualmente.

O fenômeno aparece no Pinterest Predicts 2026, relatório internacional de tendências da plataforma. O levantamento identificou crescimento de 45% nas buscas por cartas escritas à mão, de 105% por selos decorativos e de 110% por presentes enviados por correspondência. Embora os números representem o aumento do interesse nas pesquisas, e não necessariamente das vendas, eles indicam a valorização de práticas que resgatam o contato físico com objetos, lembranças e formas tradicionais de comunicação.

Para Sergio Janikian, CEO da Master, indústria brasileira de materiais escolares e artigos de papelaria, o comportamento revela uma mudança na maneira como determinados públicos se relacionam com esses itens. “A tecnologia tornou a comunicação mais rápida, mas também despertou em algumas pessoas o desejo de recuperar experiências que exigem tempo e dedicação. Escrever uma carta, montar um diário ou preparar um presente personalizado tem um significado que vai além da função do objeto. Não estamos falando de abandonar o digital, mas de encontrar espaço para atividades que proporcionem uma conexão mais pessoal e afetiva”, afirma.

Um dos exemplos mais curiosos desse resgate é o retorno dos lacres de cera, utilizados durante séculos para fechar correspondências e autenticar documentos. Atualmente, aparecem em convites de casamento, cartões, embalagens artesanais e presentes. O que antes tinha uma finalidade prática passou a representar cuidado, exclusividade e atenção aos detalhes.

O interesse também alcança papéis texturizados, canetas especiais, cadernos de capa diferenciada, carimbos e materiais para scrapbooking, técnica de criação de álbuns personalizados com fotografias, recortes e recordações. São artigos que atraem colecionadores, entusiastas de trabalhos manuais e pessoas interessadas em transformar momentos cotidianos em registros duradouros.

Nas redes sociais, práticas como journaling, hábito de manter registros pessoais em cadernos, e bullet journal, método que combina planejamento, escrita e elementos visuais, ajudam a apresentar essas atividades às novas gerações. Vídeos de organização de estojos, decoração de páginas e montagem de diários transformam objetos simples em itens de desejo, frequentemente associados à identidade e ao estilo de vida de quem os utiliza.

“O colecionismo mostra que nem toda decisão de compra é determinada pela necessidade. Muitas vezes, o consumidor procura uma peça pelo acabamento, pela memória que ela desperta ou pela satisfação de completar uma coleção. Na papelaria, isso acontece com canetas, cadernos, adesivos e outros artigos que passam a ter um significado particular. É um mercado de nicho, mas que merece atenção pela capacidade de criar vínculos emocionais”, explica Janikian.

A procura por formatos físicos não se limita ao universo da escrita. Nos Estados Unidos, o mercado de discos de vinil movimentou aproximadamente US$ 1,04 bilhão em 2025, crescimento de 9,3% em relação ao ano anterior, segundo relatório da Recording Industry Association of America (RIAA), divulgado em março de 2026. O resultado evidencia como determinados objetos analógicos continuam encontrando espaço mesmo diante da predominância das plataformas digitais.

No Brasil, o interesse por atividades manuais também aparece em práticas como pintura, desenho, bordado, montagem de álbuns e personalização de presentes. A circulação desses conteúdos nas redes sociais aproxima técnicas tradicionais de públicos mais jovens, que encontram nesses hobbies possibilidades de expressão, entretenimento e criação de lembranças.

Embora não exista um levantamento nacional consolidado que dimensione especificamente o retorno dos lacres de cera e das correspondências manuscritas, o fenômeno acompanha uma valorização mais ampla de experiências físicas e personalizadas. Nesse contexto, a papelaria deixa de ser percebida exclusivamente como um local de compra de materiais escolares e passa a dialogar com interesses ligados ao lazer, à decoração e ao colecionismo.

Para o varejo, essas preferências abrem oportunidades de diversificação do portfólio, especialmente em categorias de papelaria fina, artigos artísticos, acessórios decorativos e kits para atividades criativas. O desafio está em identificar demandas reais e compreender as particularidades de cada público, sem transformar movimentos pontuais em previsões de crescimento para todo o setor.

Com aproximadamente 400 produtos em seu catálogo, a Master atua em categorias que incluem materiais tradicionais de escrita, pintura e expressão artística. A empresa acompanha a diversificação das ocasiões de uso desses artigos, que ultrapassam o ambiente escolar e encontram aplicações em atividades recreativas e projetos pessoais.

“Durante muito tempo, a papelaria foi associada principalmente à escola e ao escritório. Hoje, também pode fazer parte do lazer, da decoração, dos presentes e da construção de memórias. O mais interessante é perceber que o avanço tecnológico não eliminou o interesse pelo papel, pela escrita e pelas atividades manuais. Em determinados momentos, é justamente a presença constante das telas que torna essas experiências mais especiais. O analógico e o digital não precisam competir; podem ocupar espaços diferentes e complementares na vida das pessoas”, conclui Sergio Janikian.

Gostou? Compartilhe!